MARIA BONITA

 

                   Maria Gomes de Oliveira, também conhecida como: Maria Déia, Maria de Neném e, posteriormente, Maria Bonita. Segundo Lira (1990 p. 505), seria chamada: Maria Adelaide. Nasceu no interior da Bahia, no município de Jeremoabo em 1911. Filha de José Felipe de Oliveira e Maria Joaquina Déia e teve 12 irmãos: Ananias, Antonia, Arlindo, Benedita, Chiquinha, Deusinha, Dondon, Dorzina, Izaías, José, Naná e Ozéas.

                   Casou-se, aos 18 anos, com o sapateiro José Miguel da Silva (o José de Neném) e foram viver no município vizinho de Santa Brígida. Porém, segundo Ary, “Maria e Neném não se davam bem, por isso ela visitava freqüentemente seus pais. A fazenda ficava na fronteira entre Bahia e Sergipe, por onde Lampião passava muitas vezes. Seus pais consideravam Lampião um grande homem. Foi a mãe de Maria quem contou a Lampião que sua filha tinha uma grande admiração por ele”.

                   Santos, um poeta cordelista, fala sobre o primeiro encontro do casal e verseja da seguinte maneira (alguns excertos):

"O certo é que Lampião

Tinha o coração de aço

Beijava qualquer morena

Mas não queria embaraço

Mas vivia apaixonado

Por não haver encontrado

A rainha do cangaço.

 

Porém um dia feliz

Ele encontrou sua dita

Bem perto de Paulo Afonso

Numa casinha catita

Estava seu grande amor

Uma melindrosa flor

A ‘tal’ Maria Bonita.''

   

                   Foi a primeira mulher (então com 19 anos) a ingressar no bando em 1930. Lampião foi o primeiro cangaceiro a arranjar uma companheira fixa e trazê-la para a horda itinerante. Diante do fato, comenta  Araújo: "Com esse 'Abre-te Sésamo', dado pelo chefe, imediatamente foram sendo 'convocadas' novas sertanejas para as fileiras do 'exército' lampiônico". (1985 p. 374) 

                   Araújo, também comenta que ela, foi: "sem dúvida, a figura mais conhecida, comentada, divulgada, valorizada, adulada, elogiada, dentre todas aquelas mulheres que viviam com cangaceiros. O fato de ser amante do chefe supremo lhe dava tal privilégio." (1985, p. 168) 

                   Maria Bonita era uma mulher atraente. Tinha o tipo físico, da mulher sertaneja: baixa, bem proporcionada, olhos escuros, cabelos lisos escuros e pele morena clara.

                   Segundo Pernambucano de Mello, “era [cerimoniosamente] chamada de ‘Dona Maria’ pelo bando, quando se dirigiam diretamente a ela, ou a ‘mulher do Capitão’, quando se referiam a ela.” Porém, Lampião a tratava carinhosamente por "Santinha". Pois, a alcunha "Bonita", acredita-se, foi algo mais decantado pelos "paisanos" - após sua morte - do que propriamente pelo próprio grupo a qual pertencera. Enfatizada tal posição, quando Martins nos diz que: "... sua aproximação com Maria Bonita só tomou ares românticos depois de sua morte - na verdade, enquanto atuou no Nordeste, jamais a figura de Maria Bonita teve nenhuma significação  na vida e nas aventuras do bandido." (1967 p. 10) Embora muitos outros casais famosos tenham surgido, como: Baliza e Antonia; Cajazeiras e Enedina; Canário e Adília; Cirilo e Moça; Corisco e Dadá; Criança e Dulce; Gato e Inacinha; Gitirana e Maria Cardoso; Labareda e Mariquinha; Luiz Pedro e Nenê; Mariano e Adelaide; Moderno e Durvalina; Moita Brava e Doninha; Mourão e Sabina; Pancada e Maria de Pancada; Passarinho e Lica; Pedra Roxa e Quitéria; Português e Cristina; Serra Branca e Eleonora; Zé Baiano e Lídia e Zé Sereno e Sila, dentre  outros.

                   As mulheres participavam ativamente do bando, além de companheiras, davam apoio nos combates. A este respeito, Sila menciona que "as mulheres do cangaço não entravam nas guerrilhas para atirar (isso no meu tempo). Recebíamos uma mauser e um punhal, porque se atacassem tínhamos como nos defender. Por precaução, aprendíamos a atirar." (1995 p. 33)

                   Em entrevista dada ao periódico O Estado de S. Paulo, nos anos 70, Balão (ex-cangaceiro) declarou: "Enquanto não apareceu mulher no cangaço, o cangaceiro brigava até enjoar. Depois, diante de qualquer perigo, logo se podia ouvir: ai, corre, corre!".

                   Sinhô Pereira, um outro antigo cangaceiro e chefe do jovem Lampião quando este iniciou-se no cangaço, também era contrário à presença feminina: "Eu fiquei muito admirado, quando soube que Lampião havia consentido que mulheres ingressassem no cangaço. Eu nunca permiti. Nem permitiria." Afinal, o padre Cícero tinha profetizado: "Lampião será invencível, enquanto não houver mulher no seu bando." A historiografia do cangaço registra também uma tendência a identificar o declínio do movimento à sua abertura às mulheres.

                   Maria Bonita esteve ao lado de Lampião no mundo do cangaço por 8 anos e com ele teve uma filha – Maria Expedita - em 1932 que foi entregue e criada por um "coiteiro" de Sergipe, como faziam os casais cangaceiros à época. Tombou no combate do Angico, em 1938,  juntamente com Lampião e mais 9 "cabras".  

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

LIRA, João G. de . Lampião: Memórias de um soldado de volante.

     Recife: Fundarpe/CEPE, 1990. 

ARY, Wilma. Grandes Figuras Femininas dos 500 anos de Brasil:

Maria Bonita

(http://www.wmulher.matrix.com.br/colabora/w_ary/maria_bonita.htm)

 

SANTOS, Antonio T. Lampião, o Rei do Cangaço.

S/l: s/e, s/a.  

 ARAUJO, Antonio A. C. de. Lampião: As mulheres e o cangaço.

     São Paulo: Traço, 1985.

 ________, idem, ibidem.

 

PERNAMBUCANO DE MELLO, Frederico. Quem foi Lampião.  

 

MARTINS, Fran. Op. cit.   

 

SILA (Ilda Ribeiro de Souza).

Sila: Memórias de Guerra e Paz.

Recife: UFRPE, 1995.