CRENDICES

                   Esta página inspira-se, adapta e acresce algumas crendices, simpatias, benzeduras, mezinhas e suas ações em forma de "rezas" e "tratamentos" usados nos tempos do cangaço. Alguns existem desde os tempos coloniais, outros persistem até nossos dias nas regiões interioranas do Nordeste brasileiro e aqui apresentados de forma bem humorada, mas procurando ser fiel ao ideário popular da época.

                   A famosa crença do corpo fechado, Rangel de Farias nos conta que "Todos  os homens que se embrenhavam em lutas freqüentes e conseguiam sobreviver, passavam a categoria de privilegiados, possuidores de benesses mágicas, sendo colocados pela crendice popular no rol daqueles que a morte respeitava tangida pela posse de amuletos ou rezas fortes". (p. 40)

                   O célebre costume de se dizer: "Salve!", "Viva!", "Saúde!", "Deus te salve!", "Deus te crie" quando uma pessoa espirra, é muito antigo e universal. Perpetua-se em toda o Brasil e, particularmente, na região nordestina. O folclorista Souto Maior conta que "Os romanos acreditavam que espirrar à meia-noite e ao meio-dia era sinal de más notícias, o que não acontecia se a pessoa não espirrasse ao meio-dia, à meia-noite. A pessoa não deve espirrar quando se deita na cama pela manhã ou quando estiver à mesa durante as refeições. O povo diz que quando o doente espirra não morre nesse dia. O espirro faz com que a pessoa fique livre das bruxarias."

                   Na farmacopéia popular do sertão, a "cachaça" quando misturada a determinado tipo de erva, era recomendada para inúmeras enfermidades, como: picadas de cobra, astenia, reumatismo, sífilis e maleita; além, de gripes, constipações e resfriados. Uma boa "garrafada" (emulsão, onde as raízes ou ingredientes eram misturados no vinho ou aguardente), indicados para tantos males. Era tomado antes de um bom banho quente. Não esquecendo que tem-se como um eficaz afrodisíaco. Já o "rapé" (fumo de rolo seco e triturado em um pó bem fino) quando aspirado profundamente, resultando seguidos e fortes espirros, seria indicado para sinusites, dores de cabeça e coriza.

      Outros tratamentos, também, eram recomendados:

- Para tratar espinhas: aplicar no rosto esterco de galinha choca.

- Para a calvície era tratada com uma pasta de mosca.

- Para a amidalite: tomar chá de formiga servido com cozimento de angico com sal.

- Para as cólicas: tomar água serenada (orvalhada/dormida ao relento).

- Para erisipela era aconselhado a amarrar a perna com fita vermelha.

- Para o tratamento de piolho era formar uma pasta com sementes de pinhas torradas e óleo de pequi (este untado à cabeça por algumas horas embaixo do sol para que os parasitas caíssem todos).

- Para o tratamento de lesões pulmonares, por mais complicado que fosse o problema, não iria encontrar dificuldades para debelar a doença. Nesse caso, a dica era extremamente simples. Bastava esticar-se no chão duro.

- Para tratar a indigestão, o remédio indicado: purgante de óleo de rícino. Se não resolver, "clister de pimenta"!.

- Para pantim (frescura) de mulher, o remédio certeiro: pisa (surra) de pau de macambira.

 

                   O cão (cachorro) era o velho companheiro dos cangaceiros na caatinga. O renomado folclorista potiguar Câmara Cascudo, nos lega uma página interessante sobre as inúmeras superstições ligadas ao cachorro: "Quando uiva, está chamando desgraça para seu dono. Ouvindo o uivo, diz-se: todo o agouro para teu couro! Ou emborca-se um sapato virando-se a palmilha para cima. O cão se calará. Cachorro cavando na porta de casa está cavando a sepultura do dono; se cavar areia com o focinho para rua vale o mesmo. Com o focinho voltado para casa, cavando para fora, é anúncio de dinheiro. Dormindo com a barriga para cima, mau agouro. Deitado, com as patas dianteiras cruzadas, bom agouro. Rodando sem destino pela casa, está afugentando o diabo. Dormindo e ganindo, está sonhando. Urinando na porta é prognóstico feliz. Quando está uivando é porque vê almas do outro mundo ou a morte aproximando-se. Os cães eram sacrificados a Hécate e avisavam de sua presença invisível uivando, assim como viam os deuses, os lêmures, as sombras dos mortos (Ovídio, Fastos, 1, 889; Horácio, Epodos, V). Para cachorro não crescer, pesa-se com sal. Para não fugir, enterra-se a ponta da cauda ou os escrotos debaixo do batente da porta, ou, sendo na fazenda de criar, no mourão da porteira. Não é bom erguer o cão pelas orelhas, para que não fique mofino (covarde). Para não ficar hidrófobo, deve ter nome de peixe. Quem mata um cão deve uma alma a São Lázaro. Puxando a cauda do cão toma-se ladrão. Para livrá-lo da tosse, põe-se-lhe ao pescoço um rosário feito com pedaços de sabugo de milho. Cachorro com orelha cortada na sexta-feira da Paixão fica imune de hidrofobia. Quem sofre de pesadelo deve fazer um cachorro dormir debaixo da cama. Para perder o faro, passa-se uma bolinha de sebo na ponta da cauda e dá-se-lhe a comer. Para readquirir o faro, esfrega-se-lhe no focinho sangue de tatu ou de veado..."

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS

  RANGEL DE FARIAS, Edésio. op cit.

  SOUTO MAIOR, Mário. Dicionário folclórico para estudantes.

       http://www.soutomaior.eti.br/mario/paginas/dic_e.htm

 

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do folclore brasileiro.

       Rio de Janeiro: MEC/ Instituto Nacional do Livro, 1954.

       Apud FARIA, Osvaldo Lamartine de.

       In Crendices entre os caçadores do Sertão do Seridó.
       http://jangadabrasil.com.br/marco55/pn55030c.htm